segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Nobreza de Ser Nobre

Se descontarmos a vinda do FMI, a patética discussão sobre se o Governo e o PSD negociaram o PEC4 ou não (e se tal aconteceu através de uma reunião ou apenas por meio de um telefonema) e as sempre presentes sondagens, o acontecimento que mais tem marcado esta campanha eleitoral é, sem dúvida, a presença de Fernando Nobre nas listas do PSD por Lisboa.



Fernando Nobre é uma figura há muito presente na sociedade portuguesa. Fundador da AMI em 1984 e conhecido amigo pessoal do Dr. Mário Soares, pautou a sua participação cívica até há alguns anos por um trabalho rigoroso e discreto, mesmo quando saía em apoio de Soares nos lutas políticas deste. Sempre lhe foi reconhecido uma tendência socialista forte (talvez por associação ao histórico do PS), mas mesmo assim, Fernando Nobre sempre se apresentou como uma figura discreta, mas importante, do panorama cívico português.

Em 2009, algo muda, ainda que discretamente. Durante a campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, Fernando Nobre surge como mandatário dos candidatos do Bloco de Esquerda. Aparece nalguns comícios, faz alguns discursos, sempre apregoando que as ideias do BE (partido que tem um discurso que roça, por vezes, o anti-europeismo) sempre foram as suas. Nada de muito chocante, já que Nobre tem aqui um papel cívico mais interventivo, mas, ainda assim, discreto.

2011 e novas mudanças se avizinham, com Fernando Nobre a apresentar-se como candidato à Presidência da República, tendo como apoio apenas o movimento cívico de quem o quiser apoiar. Faz uma campanha interessante, sem muitas propostas concretas, mas sem medo da combatividade inerente a uma campanha em que um dos candidatos é o Presidente em exercício. Confesso que fui um apoiante não participativo de Nobre nas Presidenciais, em especial por achar que a candidatura de Manuel Alegre (e o próprio candidato) estavam minados, quer pela aparente incongruência de apoios (PS e BE, juntos em campanha), quer pelas declarações de Alegre nas Presidenciais anteriores. Nobre faz também uma campanha com uma forte componente anti-partidária que, face ao descontentamento dos eleitores pela classe política, recolhe alguns apoios de normais votantes nos candidatos alinhados com os partidos.

Os resultados destas eleições, ainda que não tenham colocado Fernando Nobre no Palácio de Belém, foram bastante interessantes: recolheu 14.07% dos votos, contra os 19.74% de Alegre e os 52.95% de Cavaco. E, com o fim das Presidenciais, começa a caminhada de Nobre até ao presente. Vestindo-se do mesmo taboo que Alegre tentara usar nas Presidenciais de 2006, Fernando Nobre remete-se ao silêncio, dizendo que teria de reflectir sobre como prosseguir e dar continuidade à onda de apoio e ao movimento cívico que o apoiara, dizendo que teria de reflectir sobre o que 14.07% de votantes quereriam que ele fizesse, dizendo que revelaria as suas intenções em Maio de 2011.

Ora acontece, como todos sabemos, que entre as eleições Presidenciais em finais de Janeiro e a data anunciada por Nobre para falar, tivemos a queda do Governo, a dissolução da Assembleia da República e a convocação de novo acto eleitoral para esse órgão. Entre as eleições Presidenciais em finais de Janeiro e a data anunciada por Nobre para falar, o PSD viu as sondagens começarem a mostrar uma tendência negativa e, se 1% faz a diferença, 14.07% fazem muito mais. E assim, surge o anuncio de que Fernando Nobre, Presidente e Fundador da AMI, candidato presidencial, seria o cabeça-de-lista do PSD por Lisboa - isto depois do convite recusado a Manuela Ferreira Leite.

E, ainda que a viragem à direita de Fernando Nobre me cause alguma impressão, não é de todo algo que me cause estranheza (por favor, depois da conquista cavaquista de Zita Seabra, nada desse género me espanta ou mesmo me causa confusão!). O problema são as declarações de Fernando Nobre que se seguem a este anúncio: seria o candidato do PSD à Presidência da Assembleia da República e, em caso de derrota nessa eleição, abandonaria o Parlamento. Mesmo com as emendas que Nobre, Passos Coelho e o eterno sidekick Miguel Relvas se apressaram a tentar fazer, este tipo de afirmações não foram bem recebidas nem pelos 14.07% de votantes a quem Nobre tem de agradecer o convite do PSD nem aos restantes 85.93% (mais abstencionistas, que foram muitos em Janeiro de 2011, mas que antevejo reduzirem-se agora). Este tipo de afirmações denotam uma sede de poder, uma sede de adicionar outro Presidente de ao currículo que nunca ficam bem em política, muito menos numa altura em que a sondagens oscilam de forma errada para os lados do PSD.

Concluindo, fiquei desapontado com o percurso que Nobre tomou. Se me parece ser verdade que não foi apenas o PSD que sondou o Presidente da AMI para integrar as suas listas (mesmo que todos os outros partidos, em especial o PS, o tentem agora negar), a escolha de Fernando Nobre parece-me ter sido baseada nessa promessa de candidatura à segunda figura da República e, dadas as individualidades que o antecederam (Almeida Santos, Mota Amaral ou Jaime Gama, só para citar alguns), é com muita pena que vejo um cargo de tanta dignitas ser conspurcado por uma vã sede de poder e protagonismo.

1 comentário:

Jorge disse...

A sede de poder corrompe as pessoas e este, para mim, perdeu toda e qualquer credibilidade que pudesse ter. Mas esta onda de querer figuras públicas, notáveis e todo este circo à volta das campanhas só acontece porque a generalidade das pessoas perde mais tempo a escolher a marca do desodorizante do que a ponderar - depois de devidamente informadas, o que também é um desafio - em quem vão votar para governar o seu país.