Portugal está a olhar para o abismo e, como diria Nietzsche, invariavelmente temos o abismo a olhar para Portugal. É um abismo escuro e sem fundo e que toma tantas formas como os diferentes discursos e opiniões a que somos expostos diariamente através de jornais e televisões. Este abismo metamorfo tanto se apresenta com o aspecto do Fundo Monetário Internacional (vulgo, FMI) dos senhores Strauss-Kahn e Borges (esse grande patriota e herói nacional!), como adquire a aparência nebulosa das descontroladas (ou demasiadamente bem controladas) agências de ra(n)ting (Moody's, Fitch, Standard & Poor’s e outras do mesmo género) e é impossível esquecer a abissal hidra de várias cabeças , de onde se destacam Angela Merkel e Jean-Claude Trichet, entre outros (alguns até cá nasceram e por cá governaram). É esse o abismo para que Portugal olha, mas existe um outro fosso tenebroso e sombrio que o abismo, quando olha de volta para Portugal, consegue distinguir e temer na nossa vida pública e, especialmente, na nossa classe política. Essa nossa classe política é populada por personagens a que estamos tão habituados que nem parecemos preocupar-nos com os erros grosseiros e infantis que cometem. Mas é importante atentar a esses erros e perceber como surgiu esta crise que, com a pressão de agências de rating e entidades europeias, nos empurraram para um pedido de ajuda externa.
A primeira personagem é a menos complexa de descrever... Jerónimo de Sousa tem um percurso político que poderia fazer lembrar Lula da Silva, mas perde-se no "Mar Morto" ideológico que é o PCP. O PCP tornou-se, desde há muitos anos, uma espécie de Herri Batasuna dos Sindicatos (CGTP e UGT à cabeça) e, no marasmo e estagnação ideológica em que vive, essa é a sua estratégia de sobrevivência. Jerónimo de Sousa, enquanto líder de um partido transformado em beco sem saída, está longe de ser estúpido ou inapto politicamente, mas sinto-o demasiadas vezes vergado à tradição do PCP e incapaz de o transformar e, nesse aspecto, Jerónimo é a face mais visível da ideia do "voto de protesto" e dos supostos "valores de esquerda" que o Governo socialista esqueceu há muito.
Francisco Louçã é a segunda personagem do nosso teatro político. Louçã, ainda que lhe custe admiti-lo, é muito semelhante a uma outra figura da vida política portuguesa - Paulo Portas - não apenas pelas tomadas de posição marcadas e extremadas que muitas vezes ambos tomam ou pela inteligência que lhes é reconhecida, mas também porque, longe de serem um produto dos partidos que lideram, são a sua origem e o seu eixo rotação. Mas, neste cenário de crise e eleições, o Bloco de Esquerda tomou a dianteira e apostou numa jogada política inteligente: chamou a si o PCP (de onde vieram a maioria dos seus membros e com o qual sempre assumiu diferenças inconciliáveis), forçando a PS a uma opção que, traduzida de forma simples, se resume a um "ou estás connosco ou contra nós", em que o "nós" é a tradicional esquerda portuguesa. Esta é a grande estratégia da esquerda portuguesa para evitar a chegada ao governo de uma coligação PSD-PP ou mesmo PSD-PS-PP.
Se em Louçã temos o estratega da esquerda e em Jerónimo um tradicionalismo inoperante, Pedro Passos Coelho parece-me cair na definição do novato da direita portuguesa que não apostou na melhor mão para finalmente ir a jogo! Passos Coelho lidera o mesmo PSD que, até com figuras fortes como Sá Carneiro e Cavaco Silva ao leme, sempre se debateu com divisões internas e Passos Coelho não me parece ser capaz de tomar as rédeas do partido de forma firme. O PSD já se debate com fracturas internas, aparentes na recusa de Manuela Ferreira Leite para encabeçar a lista por Lisboa para as legislativas ou na ausência de figuras de relevo do partido a cerrarem fileiras para a luta que se avizinha. É quase triste ver Passos Coelho acompanhado por José Relvas, esse nome de referência no partido, dizer uma coisa num dia e desdizer-se no dia seguinte. Relembro que Ferreira Leite começou a perder as últimas legislativas naquela gaffe memorável dos "6 meses de suspensão da democracia" e Passos já acumulou o chumbo de um PEC cujas medidas apoia e planeia implementar e com a questão patética do IVA, erros que José Sócrates (um notável animal de campanha) saberá aproveitar, sem qualquer dúvida! E há a questão de Fernando Nobre, que abordarei num post futuro.
A sorte de Passos Coelho é ter um parceiro muito inteligente (e experiente) em Paulo Portas e se houve algo que Passos fez bem foi aquele anúncio de que haverá aliança com o PP alcance ou não o PSD uma maioria absoluta no Parlamento (poder-se-á argumentar que assumir isso neste momento afasta os eleitores de centro-esquerda que poderiam ponderar em votar PSD, mas é um risco que Passos Coelho tinha de assumir). Paulo Portas, mesmo defendendo uma ideologia radicalmente oposta àquela em que eu me revejo, é, na minha opinião, o político mais inteligente e perspicaz de Portugal, neste momento. O seu silêncio e a forma como tem evitado pronunciar-se em demasia sobre esta crise política mostra a sabedoria da velha raposa que espera para ver para que lado pendem os acontecimentos e só depois agirá.
Quase no fim da listagem das personagens principais do abismo interno em que Portugal se afunda, está José Sócrates. Já referi que considero José Sócrates um mestre em planear e executar campanhas eleitorais: nas legislativas de 2005 ganhou uma maioria apresentando um programa de governo com menos conteúdo do que uma página de papel em branco (não era difícil vencer, dado que a oposição era Santana Lopes, mas a verdade é que mesmo assim, obter uma maioria sem se comprometer com nada é fabuloso) e nas legislativas de 2009 destruiu a vantagem do PSD de Manuela Ferreira Leite, debaixo da contestação de professores e outros profissionais, e ganhou as eleições (perdendo a maioria absoluta do anterior governo, mas já vencer as eleições foi um feito). Portanto, parece-me precipitado assumir que José Sócrates está acabado. Diga-se que Sócrates mente, diga-se que ele se diz e desdiz com a mesma velocidade com que alguém pisca os olhos, diga-se que é arrogante... Diga-se o que se disser, Sócrates ainda aí anda e, mesmo notando-se que o PS começa já a pensar em arranjar um novo líder, Sócrates é um jogador com quem Passos Coelho pode não conseguir jogar.
E, por fim, o Presidente Cavaco Silva, cuja inacção, propositada ou não, fez cair o governo. Cavaco Silva, que sempre cultivou aquela aparência etérea de abnegação pelas manobras de bastidores que dominam a política (porque, segundo o próprio, ele, que já foi Ministro das Finanças, Primeiro Ministro e Presidente da República, não é um político profissional!), mostrou a verdadeira face tanto mal-explicada história das escutas em Belém como no seu discurso de vitória das presidenciais de 2011. Não ter agido e continuar a não agir neste momento só mostra que, ao dar lições de moral para que não se brinque à política quando o país enfrenta uma crise nunca vista, desce aos confins da hipocrisia política que tanto diz desprezar... Cavaco Silva é, possivelmente, o maior político profissional a actuar em Portugal e fá-lo através das armas de todos os outros: conspiração, acção, reacção e inacção! E claro, a mentira...
É este o nosso abismo interno, mas o que acontece quando um abismo olha para outro abismo? E dar Passos em frente significa avançar ou ficar no mesmo sítio? Essas serão as respostas que tentarei encontrar no próximo post deste Diário Por Escrito.
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