domingo, 1 de maio de 2011

Um Aparte: "Está na Hora de Mudar... o Passos Coelho!"

Até o PSD quer mudar o Passos Coelho! São eles e todos os outros...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Nobreza de Ser Nobre

Se descontarmos a vinda do FMI, a patética discussão sobre se o Governo e o PSD negociaram o PEC4 ou não (e se tal aconteceu através de uma reunião ou apenas por meio de um telefonema) e as sempre presentes sondagens, o acontecimento que mais tem marcado esta campanha eleitoral é, sem dúvida, a presença de Fernando Nobre nas listas do PSD por Lisboa.



Fernando Nobre é uma figura há muito presente na sociedade portuguesa. Fundador da AMI em 1984 e conhecido amigo pessoal do Dr. Mário Soares, pautou a sua participação cívica até há alguns anos por um trabalho rigoroso e discreto, mesmo quando saía em apoio de Soares nos lutas políticas deste. Sempre lhe foi reconhecido uma tendência socialista forte (talvez por associação ao histórico do PS), mas mesmo assim, Fernando Nobre sempre se apresentou como uma figura discreta, mas importante, do panorama cívico português.

Em 2009, algo muda, ainda que discretamente. Durante a campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, Fernando Nobre surge como mandatário dos candidatos do Bloco de Esquerda. Aparece nalguns comícios, faz alguns discursos, sempre apregoando que as ideias do BE (partido que tem um discurso que roça, por vezes, o anti-europeismo) sempre foram as suas. Nada de muito chocante, já que Nobre tem aqui um papel cívico mais interventivo, mas, ainda assim, discreto.

2011 e novas mudanças se avizinham, com Fernando Nobre a apresentar-se como candidato à Presidência da República, tendo como apoio apenas o movimento cívico de quem o quiser apoiar. Faz uma campanha interessante, sem muitas propostas concretas, mas sem medo da combatividade inerente a uma campanha em que um dos candidatos é o Presidente em exercício. Confesso que fui um apoiante não participativo de Nobre nas Presidenciais, em especial por achar que a candidatura de Manuel Alegre (e o próprio candidato) estavam minados, quer pela aparente incongruência de apoios (PS e BE, juntos em campanha), quer pelas declarações de Alegre nas Presidenciais anteriores. Nobre faz também uma campanha com uma forte componente anti-partidária que, face ao descontentamento dos eleitores pela classe política, recolhe alguns apoios de normais votantes nos candidatos alinhados com os partidos.

Os resultados destas eleições, ainda que não tenham colocado Fernando Nobre no Palácio de Belém, foram bastante interessantes: recolheu 14.07% dos votos, contra os 19.74% de Alegre e os 52.95% de Cavaco. E, com o fim das Presidenciais, começa a caminhada de Nobre até ao presente. Vestindo-se do mesmo taboo que Alegre tentara usar nas Presidenciais de 2006, Fernando Nobre remete-se ao silêncio, dizendo que teria de reflectir sobre como prosseguir e dar continuidade à onda de apoio e ao movimento cívico que o apoiara, dizendo que teria de reflectir sobre o que 14.07% de votantes quereriam que ele fizesse, dizendo que revelaria as suas intenções em Maio de 2011.

Ora acontece, como todos sabemos, que entre as eleições Presidenciais em finais de Janeiro e a data anunciada por Nobre para falar, tivemos a queda do Governo, a dissolução da Assembleia da República e a convocação de novo acto eleitoral para esse órgão. Entre as eleições Presidenciais em finais de Janeiro e a data anunciada por Nobre para falar, o PSD viu as sondagens começarem a mostrar uma tendência negativa e, se 1% faz a diferença, 14.07% fazem muito mais. E assim, surge o anuncio de que Fernando Nobre, Presidente e Fundador da AMI, candidato presidencial, seria o cabeça-de-lista do PSD por Lisboa - isto depois do convite recusado a Manuela Ferreira Leite.

E, ainda que a viragem à direita de Fernando Nobre me cause alguma impressão, não é de todo algo que me cause estranheza (por favor, depois da conquista cavaquista de Zita Seabra, nada desse género me espanta ou mesmo me causa confusão!). O problema são as declarações de Fernando Nobre que se seguem a este anúncio: seria o candidato do PSD à Presidência da Assembleia da República e, em caso de derrota nessa eleição, abandonaria o Parlamento. Mesmo com as emendas que Nobre, Passos Coelho e o eterno sidekick Miguel Relvas se apressaram a tentar fazer, este tipo de afirmações não foram bem recebidas nem pelos 14.07% de votantes a quem Nobre tem de agradecer o convite do PSD nem aos restantes 85.93% (mais abstencionistas, que foram muitos em Janeiro de 2011, mas que antevejo reduzirem-se agora). Este tipo de afirmações denotam uma sede de poder, uma sede de adicionar outro Presidente de ao currículo que nunca ficam bem em política, muito menos numa altura em que a sondagens oscilam de forma errada para os lados do PSD.

Concluindo, fiquei desapontado com o percurso que Nobre tomou. Se me parece ser verdade que não foi apenas o PSD que sondou o Presidente da AMI para integrar as suas listas (mesmo que todos os outros partidos, em especial o PS, o tentem agora negar), a escolha de Fernando Nobre parece-me ter sido baseada nessa promessa de candidatura à segunda figura da República e, dadas as individualidades que o antecederam (Almeida Santos, Mota Amaral ou Jaime Gama, só para citar alguns), é com muita pena que vejo um cargo de tanta dignitas ser conspurcado por uma vã sede de poder e protagonismo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Abismo e os Primeiros Passos (Parte Dois)

Os últimos dias têm sido pródigos em palermices. E a sondagem Marktest/TSF/Diário Económico de hoje atesta um pouco isso. Recapitulando um pouco tudo o que aconteceu: temos a entrada do FMI com as questões da viagem a pé dos seus representante e a chegada do ministro das Finanças de Mercedes; temos o caso Nobre com este a dizer-se e desdizer-se constantemente sobre a Presidência da Assembleia da República; temos uma entrevista brilhante de Paulo Portas à TVI (parte 1 e parte 2) e; por fim, temos as palermices da discussão se o PEC 4 foi ou não comunicado pelo governo ao PSD por telefone ou por uma reunião discreta.

Estes são os primeiros passos que Portugal está a dar para o abismo. E alguma da culpa desses primeiros passos é, para além do Governo Sócrates, de Pedro Passos Coelho! O FMI chegou e, agora, não há muito a fazer. É evidente para qualquer um que a governação do próximo governo estará condicionada pelas exigências do Fundo e que será pouco responsável pela maioria das medidas que tomará. Mas isso só traz mais força ao argumento que Paulo Portas apresenta na entrevista e que blogger Jorge Candeias também apresenta no seu blog: este é o momento para deixar de bipartidarismo e relembrar que há dezenas de partidos com ideias, políticas e programas a pensar e a quem se pode dar o voto! Deixemo-nos de clubismos (tão tipicos na politica portuguesa) e percebamos que existem BE, PCP, CDS e outros com ideias novas, interessantes e importantes nesta altura em que temos o FMI em Portugal. Chega de voto útil e tretas semelhantes!

E se o caso Nobre terá o merecido destaque (tal é a palermice inerente a esse caso) num post durante este fim-de-semana, um artigo de opinião no Jornal de Negócios chamou-me a atenção e será importante para perceber se Portugal quer mesmo entregar o país ao PSD e perceber se queremos que Passos nos lidere nesta caminhada à beira do precipício.
É evidente que a despesa pública cresceu no últimos 35 anos. E esquecendo (ainda que sendo díficil esquecer) o governo Sócrates desde 2009, é evidente os períodos em que essa dívida cresceu mais: 1979-1983, 1983-1985, 1985-1995 e 2002-2005. Ora, quem estaria no governo nestes períodos?
O PSD! Se analisarmos os números, verificamos que 75% da dívida pública actual é uma herança de governos PSD. Claro que a análise não tem os números da gigantesca dívida pública desse mecanismo orçamental que são as empresas públicas, mas também é verdade que o período de 1985-1995 foi o período em que Portugal mais recebeu dinheiro de Bruxelas e, estranhamente, é o período em que Portugal mais se endividou... Quem seria o aparente mau aluno de Economia e Finanças à frente do governo nesse período? Este senhor tão alegre:
A verdade é que o mesmo senhor que parece ter herdado de Marcello Caetano a vontade de ter conversas em família (ou sermões em directo pela televisão), o mago das Finanças governou durante o período em que mais dinheiro entrou em Portugal e que o esbanjou e utilizou em obras megalomanas (CCB?), destruindo a agricultura, as pescas e um pouco da indústria que Portugal tinha, é o mesmo que vem agora, esquecendo os tabus que ele inventou durante a sua governação, dar sermões aos que, bem ou mal (maioritariamente mal, verdade seja dita!), vão governando este país! Foi a sua inoperância que despoletou esta crise política, o que nos leva novamente a Pedro Passos Coelho...

Recentemente, Pacheco Pereira veio a público dizer que havia uma ordem de silêncio sobre o PEC 4, porque PSD e Governo estavam a negocia-lo. Ora, se bem me relembro, o PEC 4 foi chumbado pelo PSD porque o Governo não tinha negociado o Programa... Algo aqui não parece bater certo! Portanto, Passos Coelho já conseguiu assimilar outra fantástica caracteristica do nosso primeiro-ministro demissionário: também já mente com quantos dentes tem na boca! E eis-nos, diante do abismo e a dar Passos gigantes na sua direcção!

P.S.: E porque o rídiculo não era suficiente, eis que surge a notícia no Jornal I de que Telmo, concorrente da primeira edição do reality show Big Brother, integra as listas do PS por Leiria...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Um Aparte: Ratolândia

(reproduzido do blog A Lâmpada Mágica)

Esta é a história de um lugar chamado Ratolândia. Ratolândia era um lugar onde todos os ratinhos viviam a brincavam, nasciam e morriam. E viviam duma forma muito semelhante a vocês e a mim.

Até tinham um parlamento. E de quatro em quatro anos tinham eleições. Iam às assembleias de voto e depositavam os seus votos. Alguns deles até apanhavam boleia até às assembleias de voto. E apanhavam boleia também para os quatro anos seguintes. Tal como vocês e eu. E sempre, no dia das eleições, todos os ratinhos iam às urnas e elegiam um governo. Um governo composto por grandes e gordos gatos pretos.

Ora, se acham estranho que ratos elejam um governo feito de gatos, olhem bem para a história do Canadá nos últimos 90 anos e talvez vejam que não eram mais estúpidos do que nós.

Reparem que eu não estou a dizer nada contra os gatos. Eram tipos simpáticos. Dirigiam o governo com dignidade. Aprovavam boas leis — isto é, leis que eram boas para gatos. Mas as leis que eram boas para gatos não eram lá muito boas para ratos. Uma das leis dizia que os buracos dos ratos tinham de ser suficientemente grandes para um gato conseguir lá enfiar uma pata. Outra lei dizia que os ratos só podiam viajar a certas velocidades — para que um gato pudesse apanhar o pequeno-almoço sem grande esforço.

Todas as leis eram boas leis. Para gatos. Mas, oh, eram duras para os ratos. E a vida ia-se tornando cada vez mais dura. E quando os ratos deixaram de conseguir aguentá-la, decidiram que alguma coisa tinha de ser feita a respeito delas. Portanto foram maciçamente às urnas. Puseram os gatos pretos na rua. Elegeram os gatos brancos.

Os gatos brancos tinham feito uma ótima campanha. Tinham dito: "Tudo o que a Ratolândia precisa é de mais visão." Tinham dito: "O problema da Ratolândia são estes buracos de ratos redondos que temos. Se nos elegerem, decretaremos buracos de rato quadrados." E foi o que fizeram. E os buracos de rato quadrados eram duas vezes maiores do que os redondos, e agora o gato podia enfiar neles ambas as patas. E a vida tornou-se mais dura do que nunca.

E quando deixaram de aguentar, os ratos puseram na rua os gatos brancos e voltaram a eleger os pretos. Depois voltaram aos brancos. Depois aos pretos. Até experimentaram gatos metade pretos e metade brancos. E chamaram a isso coligação. Até arranjaram um governo feito de gatos com malhas: eram gatos que tentavam fazer ruídos de rato mas comiam como gatos.

O problema, meus amigos, não estava na cor do gato. O problema era eles serem gatos. E, como eram gatos, naturalmente preocupavam-se com os gatos e não com os ratos.

A dado passo apareceu um ratinho com uma ideia. Meus amigos, cuidado com o tipo pequenino com uma ideia. E ele disse aos outros ratos: "Olhem, rapazes, porque é que continuamos a eleger governos feitos de gatos? Porque é que não elegemos um governo feito de ratos?" "Oh," disseram eles, "este é um bolchevique. Prendam-no!" Portanto puseram-no na cadeia.

Mas quero lembrar-vos de que podem prender um rato ou um homem, mas não é possível prender uma ideia.

Fábula política de origem canadiana mas bastante universal, criada por Clare Gillis, popularizada por Tommy Douglas e traduzida para português por Jorge Candeias.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Abismo e os Primeiros Passos (Parte Um)

Portugal está a olhar para o abismo e, como diria Nietzsche, invariavelmente temos o abismo a olhar para Portugal. É um abismo escuro e sem fundo e que toma tantas formas como os diferentes discursos e opiniões a que somos expostos diariamente através de jornais e televisões. Este abismo metamorfo tanto se apresenta com o aspecto do Fundo Monetário Internacional (vulgo, FMI) dos senhores Strauss-Kahn e Borges (esse grande patriota e herói nacional!), como adquire a aparência nebulosa das descontroladas (ou demasiadamente bem controladas) agências de ra(n)ting (Moody's, Fitch, Standard & Poor’s e outras do mesmo género) e é impossível esquecer a abissal hidra de várias cabeças , de onde se destacam Angela Merkel e Jean-Claude Trichet, entre outros (alguns até cá nasceram e por cá governaram).  É esse o abismo para que Portugal olha, mas existe um outro fosso tenebroso e sombrio que o abismo, quando olha de volta para Portugal, consegue distinguir e temer na nossa vida pública e, especialmente, na nossa classe política. Essa nossa classe política é populada por personagens a que estamos tão habituados que nem parecemos preocupar-nos com os erros grosseiros e infantis que cometem. Mas é importante atentar a esses erros e perceber como surgiu esta crise que, com a pressão de agências de rating e entidades europeias, nos empurraram para um pedido de ajuda externa.

A primeira personagem é a menos complexa de descrever... Jerónimo de Sousa tem um percurso político que poderia fazer lembrar Lula da Silva, mas perde-se no "Mar Morto" ideológico que é o PCP. O PCP tornou-se, desde há muitos anos, uma espécie de Herri Batasuna dos Sindicatos (CGTP e UGT à cabeça) e, no marasmo e estagnação ideológica em que vive, essa é a sua estratégia de sobrevivência. Jerónimo de Sousa, enquanto líder de um partido transformado em beco sem saída, está longe de ser estúpido ou inapto politicamente, mas sinto-o demasiadas vezes vergado à tradição do PCP e incapaz de o transformar e, nesse aspecto, Jerónimo é a face mais visível da ideia do "voto de protesto" e dos supostos "valores de esquerda" que o Governo socialista esqueceu há muito.

Francisco Louçã é a segunda personagem do nosso teatro político. Louçã, ainda que lhe custe admiti-lo, é muito semelhante a uma outra figura da vida política portuguesa - Paulo Portas - não apenas pelas tomadas de posição marcadas e extremadas que muitas vezes ambos tomam ou pela inteligência que lhes é reconhecida, mas também porque, longe de serem um produto dos partidos que lideram, são a sua origem e o seu eixo rotação. Mas, neste cenário de crise e eleições, o Bloco de Esquerda tomou a dianteira e apostou numa jogada política inteligente: chamou a si o PCP (de onde vieram a maioria dos seus membros e com o qual sempre assumiu diferenças inconciliáveis), forçando a PS a uma opção que, traduzida de forma simples, se resume a um "ou estás connosco ou contra nós", em que o "nós" é a tradicional esquerda portuguesa. Esta é a grande estratégia da esquerda portuguesa para evitar a chegada ao governo de uma coligação PSD-PP ou mesmo PSD-PS-PP.

Se em Louçã temos o estratega da esquerda e em Jerónimo um tradicionalismo inoperante, Pedro Passos Coelho parece-me cair na definição do novato da direita portuguesa que não apostou na melhor mão para finalmente ir a jogo! Passos Coelho lidera o mesmo PSD que, até com figuras fortes como Sá Carneiro e Cavaco Silva ao leme, sempre se debateu com divisões internas e Passos Coelho não me parece ser capaz de tomar as rédeas do partido de forma firme. O PSD já se debate com fracturas internas, aparentes na recusa de Manuela Ferreira Leite para encabeçar a lista por Lisboa para as legislativas ou na ausência de figuras de relevo do partido a cerrarem fileiras para a luta que se avizinha. É quase triste ver Passos Coelho acompanhado por José Relvas, esse nome de referência no partido, dizer uma coisa num dia e desdizer-se no dia seguinte. Relembro que Ferreira Leite começou a perder as últimas legislativas naquela gaffe memorável dos "6 meses de suspensão da democracia" e Passos já acumulou o chumbo de um PEC cujas medidas apoia e planeia implementar e com a questão patética do IVA, erros que José Sócrates (um notável animal de campanha) saberá aproveitar, sem qualquer dúvida! E há a questão de Fernando Nobre, que abordarei num post futuro.

A sorte de Passos Coelho é ter um parceiro muito inteligente (e experiente) em Paulo Portas e se houve algo que Passos fez bem foi aquele anúncio de que haverá aliança com o PP alcance ou não o PSD uma maioria absoluta no Parlamento (poder-se-á argumentar que assumir isso neste momento afasta os eleitores de centro-esquerda que poderiam ponderar em votar PSD, mas é um risco que Passos Coelho tinha de assumir). Paulo Portas, mesmo defendendo uma ideologia radicalmente oposta àquela em que eu me revejo, é, na minha opinião, o político mais inteligente e perspicaz de Portugal, neste momento. O seu silêncio e a forma como tem evitado pronunciar-se em demasia sobre esta crise política mostra a sabedoria da velha raposa que espera para ver para que lado pendem os acontecimentos e só depois agirá.

Quase no fim da listagem das personagens principais do abismo interno em que Portugal se afunda, está José Sócrates. Já referi que considero José Sócrates um mestre em planear e executar campanhas eleitorais: nas legislativas de 2005 ganhou uma maioria apresentando um programa de governo com menos conteúdo do que uma página de papel em branco (não era difícil vencer, dado que a oposição era Santana Lopes, mas a verdade é que mesmo assim, obter uma maioria sem se comprometer com nada é fabuloso) e nas legislativas de 2009 destruiu a vantagem do PSD de Manuela Ferreira Leite, debaixo da contestação de professores e outros profissionais, e ganhou as eleições (perdendo a maioria absoluta do anterior governo, mas já vencer as eleições foi um feito). Portanto, parece-me precipitado assumir que José Sócrates está acabado. Diga-se que Sócrates mente, diga-se que ele se diz e desdiz com a mesma velocidade com que alguém pisca os olhos, diga-se que é arrogante... Diga-se o que se disser, Sócrates ainda aí anda e, mesmo notando-se que o PS começa já a pensar em arranjar um novo líder, Sócrates é um jogador com quem Passos Coelho pode não conseguir jogar.

E, por fim, o Presidente Cavaco Silva, cuja inacção, propositada ou não, fez cair o governo. Cavaco Silva, que sempre cultivou aquela aparência etérea de abnegação pelas manobras de bastidores que dominam a  política (porque, segundo o próprio, ele, que já foi Ministro das Finanças, Primeiro Ministro e Presidente da República, não é um político profissional!), mostrou a verdadeira face tanto mal-explicada história das escutas em Belém como no seu discurso de vitória das presidenciais de 2011. Não ter agido e continuar a não agir neste momento só mostra que, ao dar lições de moral para que não se brinque à política quando o país enfrenta uma crise nunca vista, desce aos confins da hipocrisia política que tanto diz desprezar... Cavaco Silva é, possivelmente, o maior político profissional a actuar em Portugal e fá-lo através das armas de todos os outros: conspiração, acção, reacção e inacção! E claro, a mentira...

É este o nosso abismo interno, mas o que acontece quando um abismo olha para outro abismo? E dar Passos em frente significa avançar ou ficar no mesmo sítio? Essas serão as respostas que tentarei encontrar no próximo post deste Diário Por Escrito.

Declaração de Intenções

Ontem acabou o 17.º Congresso Nacional do Partido Socialista e hoje nasce o Diário Por Escrito: com o fim do Congresso adivinha-se o início da verdadeira e feroz a campanha eleitoral e, no Diário Por Escrito, começa a minha narração do que vou vendo, ouvindo e pensando sobre a política e a actualidade portuguesa e, ocasionalmente e por consequência desse foco, a política e actualidade internacional. E, para declaração de intenções, isso bastará por agora...